As Irmãs Gelli estreiam exposição inédita em São Paulo com obras em cera vegetal e instalações interativas que exploram tempo e sensorialidade.
Primeira individual em São Paulo
As artistas cariocas Irmãs Gelli inauguraram sua primeira exposição individual em São Paulo com a mostra “Leva tempo, mas vai dar tempo”, em cartaz na Casa Seva. Com entrada gratuita até 18 de abril de 2026, a exposição reúne cerca de 20 obras inéditas, entre peças de grande escala, trabalhos cinéticos e uma instalação performática.
Com curadoria de Catalina Bergues, a mostra propõe uma reflexão sobre tempo, presença e materialidade, explorando experiências sensoriais que envolvem o público de forma direta.
Tempo como matéria e experiência
Desenvolvida ao longo de 2025, a exposição marca um momento importante na trajetória da dupla formada por Alice e Gabi Gelli, que há anos investigam a relação entre o tempo, o corpo e os processos de criação.
“O tempo não aparece aqui como tema, mas como parte da própria matéria. Os acúmulos, os mergulhos sucessivos e a espera implicados no trabalho com a cera tornam visíveis camadas de um tempo que se deposita de forma processual. Ao convidarem o público a observar e interagir com esses vestígios, as artistas deslocam a ideia de obra acabada e fixa no tempo: ao contrário, trata-se de trabalhos que seguem se transformando na presença dos visitantes e na ação contínua das próprias artistas”, declara a curadora.

Cera vegetal e camadas que revelam transformação
A principal matéria-prima das obras é a cera vegetal, utilizada em processos que exigem repetição, espera e atenção ao comportamento do material. As peças revelam camadas translúcidas formadas por mergulhos sucessivos, criando efeitos de profundidade e transformação contínua.
Os trabalhos dialogam com referências naturais e reforçam a ideia de que o tempo é construído em camadas, visível tanto na forma quanto no processo.
Sustentabilidade como prática artística
A sustentabilidade é um dos pilares da produção das artistas, presente não apenas no discurso, mas também nos materiais utilizados. Entre eles estão a cera vegetal Ecomix, plástico reciclado de faróis de carros — desenvolvido em parceria com o projeto Arte 8 Reciclagem — e madeira de demolição.
“Ao longo dos anos o nosso trabalho foi crescendo em escala, e pensar obras de grandes dimensões com materiais sustentáveis faz muito mais sentido, como quando criamos uma obra de 7 metros de comprimento feita de 45 kg de plástico reciclado, o equivalente ao consumo médio de plástico de 45 pessoas em 1 mês. Esse plástico deixa de ser lixo e passa a ser obra”, comenta Gabi.
Instalação performática e obras interativas
Um dos destaques da mostra é uma instalação performática de aproximadamente meia tonelada de cera, inspirada em formações naturais como estalactites e estalagmites. A obra será construída ao longo do período expositivo, com sessões abertas ao público.
A exposição também apresenta obras cinéticas, que se movimentam horizontalmente, convidando o visitante à interação direta.
“Aprendemos desde crianças a colocar as mãos para trás em exposições de arte. Isso, por si só, já impõe um distanciamento físico. Mas quando você convida as pessoas a tocarem o material, a adentrar uma instalação, a construir coletivamente, é uma experiência que ativa todos os sentidos. Você sai mais calmo do que entrou, consegue perceber o impacto daquela obra no seu corpo”, afirma Alice.



Casa Seva como espaço de reflexão
A escolha da Casa Seva como sede da exposição reforça o diálogo entre arte e sustentabilidade. Localizado na Vila Modernista, o espaço propõe reflexões sobre processos ecológicos e modos de vida mais conscientes.
Carolina Pileggi, representante da Casa Seva, destaca o conceito da mostra: “É essa reflexão sobre o tempo certo das coisas – esse é o tempo que leva na loucura do universo digital, ou esse é o tempo que levaria na natureza?”.

Serviço da exposição
A mostra “Leva tempo, mas vai dar tempo” fica em cartaz até 18 de abril de 2026, com visitação de terça a sexta, das 11h às 18h, e aos sábados, das 11h às 15h, na Casa Seva, em São Paulo. A entrada é gratuita.